
A manhã ameaçava surgir na noite fria. Ivy corria pela trilha úmida entre as árvores, desesperada. O castelo impunha-se na noite, como se a repreendesse por abandoná-lo. Logo, os guardas notariam sua ausência, assim como suas irmãs.
Mas o sonho que teve não a deixou voltar a dormir. Sonhou com gritos. Choques de espada. O ressoar das armaduras colidindo. Ela assistiu com os olhos de outra pessoa o momento em que uma espada atingiu-lhe o peito. Assim que acordou, seu coração quase parou de bater ao pensar que poderia ser Ewan.
Seus pés descalços chapinhavam na terra molhada, e a barra de seu pijama comprido estava pesada de lama. Ao longe, no céu quase azul, ela viu a muralha coberta de hera. Sua mente rapidamente voltou ao dia em que fugira da aula de costura. Ivy corria próxima a muralha, atrás de uma borboleta de asas incrivelmente azuis, quando viu um garoto passar por uma brecha na hera crescida. Seus olhos eram exatamente como as asas da borboleta, que Ivy acabou esquecendo. Ewan era mais alto, muito mais falante e poucos anos mais velho do que ela. Ele foi seu único amigo homem, e durante cinco anos, eles se viam quando podiam. Até a brecha ficar pequena demais para Ewan passar. Pouco tempo depois, os povos do norte declararam guerra ao seu povoado, e Ewan, sendo um aldeão, foi escolhido para se juntar ao exército de seu pai.
— Prometo que estarei aqui antes do verão chegar — murmurou ele, através da brecha.
Ivy esticou a mão através do emaranhado de folhas e tocou a mão de Ewan. Era áspera e firme, por ele trabalhar na terra.
— Vou esperar — disse ela. — Sempre vou te esperar.
Ewan apertou carinhosamente a mão de Ivy, e os dois ficaram em silêncio. O tempo não parecia relevante quando estavam juntos. Agora, o mesmo tempo que se mostrara tão amigo a agonizava. Mas ao tocar a muralha, teve a sensação de que ele estava do outro lado, esperando por ela. E talvez, pela falta de discernimento entre passado e presente, ela tenha ouvido o assovio doce de Ewan, chamando-a.
Ivy correu tanto que tropeçou ao chegar à beirada de um pequeno rio. Do outro lado, Ewan, ainda de armadura, sorria-lhe tranquilamente.
— Ewan! — disse Ivy, começando a atravessar o rio. — Você voltou! Você está vivo!
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Ivy, perdoe-me.
Ela parou. A água já lhe batia nos joelhos.
— Você não pode estar morto — murmurou Ivy, arrasada. — Prometeu que voltaria!
— A morte não é o fim, moça encantada. — murmurou ele, chamando-a pelo apelido. — E eu voltei como prometi. Sempre vou cuidar de você. Lá de cima, perto dos outros que também brilham na noite.
Ela olhou para o céu quase claro. Apenas uma estrela brilhava contra a luz do Sol. Ivy foi chamada ao longe; ela se virou apenas por uma fração de segundo. A estrela cedeu ao amanhecer. Ewan não estava mais lá.
Ivy sorriu tristemente.
— Até o crepúsculo, Ewan.

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